segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Pintura (It's a long way)

Eu me perguntava sobre o por que dessas paredes serem tão brancas. Alguém (não me lembro quem) me respondeu que elas eram assim, deste jeito, porque só a contemplação do mais puro e singelo alvo poderia despertar as várias possibilidades contidas na sua natureza.

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Ah, agora me lembro, foi o homem da fila do caixa do supermercado (um senhor calvo de meia idade com um bigode grosso feito traço forte de nanquim marcado no meio da cara miúda e desprovida de brilho).

Ele também me revelou que só caberia a mim, e só a mim, escolher com quais cores, com quais pincéis e com quais formas eu romperia aquela enfadonha monotonia. (A vacuidade é desesperadora na maioria das vezes). Antes de se calar, o senhor, tal qual um grande avatar, fechou a cara enrugando a testa e, erguendo o indicador, disse com tom de profecia que eu precisava ter muito, mais muito cuidado mesmo era com as técnicas usadas para colorir o branco!

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Ainda estou escolhendo os pincéis e as formas. Quanto às cores, confesso que às vezes dá uma vontade danada de chamuscar estas superfícies enfadonhas, cheias de um tédio de textura lisa, com uma vigorosa rajada de tinta preta. Desta de um negrume sem fim, tipo preto graúna. Tabletinho Santo Antonio pra pintar cabelo. "Preto.“Vou carregar no preto”, penso na maior parte do tempo .

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E sobre a técnica, confesso, sem vergonha alguma, que a expressão soturna do tio da fila me persegue até hoje e morro de medo de escolher a errada. Alguns me acusam de indecisa. Alegam que fujo do confronto da escolha. Mas é que há tantas, tantas, tantas. Desejo experimentá-las uma a uma, devagar e sempre. Afinal, descobri, nos raros momentos nos quais deixo-me possuir pelas tintas coloridas, que a eternidade é minha aliada!

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